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Futsal BR: Manoel Tobias, um marco na história do futsal

19 de maio de 2020 às 17:55:51


Pernambucano relembra infância no Sertão, aborda trajetória no esporte e comenta lições deixadas por pandemia

Lendário camisa 5 do futsal, Manoel Tobias integra o rol dos maiores jogadores de todos os tempos. É natural de Salgueiro, Sertão pernambucano, e atualmente mora em Fortaleza, onde é dono de um projeto que vem dando oportunidades aos jovens através do esporte há 12 anos. Durante a carreira de salonista, atuando como fixo, foi eleito três vezes o melhor do mundo, conquistou dois mundiais com a seleção brasileira, faturou a Copa América em sete ocasiões, terminou como artilheiro de duas Copas do Mundo e é detentor do recorde de gols de uma única edição da Liga Nacional de Futsal (LNF). Em entrevista à Folha de Pernambuco, ele, que completou 49 anos recentemente, relembra a sua trajetória até se aposentar em 2007.

Infância

Tive a melhor infância possível. Meu pai quase foi jogador profissional. Ele era do Recife, jogou até o sub-20 no Santa Cruz, onde era quarto zagueiro. Não seguiu porque passou em um concurso para ser diretor de uma escola do Estado e foi para Salgueiro, onde conheceu minha já falecida mãe, que era professora. Depois disso, em 1971, veio o Manoel Tobias e na sequência mais nove irmãos. Tivemos uma educação muito boa. Antigamente, não havia tanta vulnerabilidade, eu me divertia na rua, era uma vida tranquila. Acredito que tenha jogado em todos os campos que você possa imaginar que tinha naquela época em Salgueiro.

Início no Futsal

Tudo começou a ficar mais sério em 1984. Saímos lá do Sertão e fomos morar no Cordeiro, no Recife. Lá, comecei a estudar na Escola Estadual Barros Carvalho e tinha um professor chamado Valdir Pacheco de Araújo, o Dica, que além de ser professor de educação física da escola, tinha uma equipe que jogava o Pernambucano infantil. Me destaquei em uma aula e ele me chamou para jogar na equipe dele, onde fomos vice-campeões pernambucano. Neste mesmo ano, fui convidado para jogar na Bandepe e as coisas ficaram ainda mais sérias para mim no futsal. Minha categoria de base foi de 84 à 89. Com 16 anos eu jogava no sub-17 de campo e no adulto de futsal do Náutico. Em 88, jogando um campeonato de seleções, representando Pernambuco em Minas, fui contratado para jogar no Clube Candeias, de Curitiba. Passei o ano de 89 lá, me desenvolvi profissionalmente e depois fui defender a Votorantim, uma equipe que estava investindo pesado. Fui titular com 17 anos, convocado jovem para a seleção e tudo fluiu na minha vida.

Recorde de gols na LNF

Ser um recordista de gols numa liga nacional tão competitiva, onde tem grandes talentos é um privilégio. Aquela edição de 99 foi muito difícil. Nós, do Atlético/MG, tínhamos uma equipe muito forte, mas éramos apenas um dos favoritos ao título. Fazer 52 gols em uma edição foi mágico. Sempre tive consciência da representatividade desse feito, apesar do título ter sido mais importante. Por onde passei, pude ser artilheiro e estamos falando desse marco depois de 21 anos. Foi legal ter feito isso em uma competição com grandes equipes.

Parceria com Falcão

Joguei poucos jogos com Falcão na época de seleção, somos de gerações distintas e até por isso não o considero o melhor parceiro que tive nas quadras. Os dois que me dei melhor jogando pelo Brasil foram Fininho e Vander Iacovino, outros dois grandes craques da minha geração.

Futebol de campo

Em 95, eu estava na Enxuta. Por lá, fui campeão gaúcho, tinha sido eleito o melhor jogador do Brasil. Porém, em 96 eles queriam baixar o nível de investimento e os valores oferecidos foram abaixo. Sem eu saber, estava sendo monitorado pelo Grêmio para jogar no campo. No primeiro contato disse que não queria. Não desejava sair da posição em que eu estava. Mas, depois de 10 ou 15 dias de férias, quando eu estava pensando no que iria fazer, Felipão me ligou dizendo que me queria lá e fez eu mudar de decisão. Pedi uma quantia, achei que eles não topariam, mas aceitaram na hora. Fui com a consciência que seria difícil. Passei quatro meses, fiz alguns jogos amistosos, participei de três partidas oficiais e fiz um gol. Tive dificuldades, dores no joelho por conta da mudança de piso. Depois disso, o Internacional me procurou, fez a mesma proposta que o Grêmio, mas para jogar no futsal, e não pensei duas vezes. Aprendi muito no campo, e na volta às quadras fui artilheiro e campeão da LNF com o Inter, campeão mundial com a seleção e fechei o ano por cima.

Arrependimentos

Sou muito feliz, pois todas as minhas atitudes foram tomadas corretamente. Não me arrependo de nada. Sou um privilegiado como desportista, da forma que iniciei no esporte até quando terminei. Meu início não foi programado, e o final também não. Acredito que parei na hora certa, mesmo com 37 anos e podendo atuar um ano ou dois. A família para mim sempre foi prioridade e já estava desgastada de tanta mudança, de morar em cidades diferentes. Agradeço a Deus, pois tudo que fiz foi pensando de forma digna e dando o melhor nas equipes que joguei, principalmente na seleção do meu País.

Espelho para os jovens

Tive a oportunidade de participar da Seleção como assistente do Ney Pereira, entre 2013 e 2014. Além disso, fui técnico da seleção feminina e da seleção sub-20 em parte deste período. Percebi vivenciando com os craques da seleção nesta época que muitos falavam que se inspiravam em mim. Não tenho dúvidas que meu legado é vitorioso em todos os aspectos.

Aposentadoria

Depois que pendurei os tênis em 2007, eu tinha um propósito de continuar trabalhando com esportes. Não como técnico, mas sim em ajudar de uma forma administrativa. Há 12 anos, consegui uma parceria importante e hoje temos um projeto chamado Manoel Tobias Futsal Sesc. Uma parceria com o Fecomércio do Ceará. Temos 25 núcleos sociais espalhados em todo o Estado. Trabalhamos na inclusão esportiva e social de alunos/atletas de 8 a 17 anos. Sou o gestor de tudo isso, e precisei fazer faculdade e pós-graduação para isso. É uma atividade que tem toda a minha atenção durante oito, dez horas por dia. Sou grato por poder retribuir tudo aquilo que o futsal me concedeu. Sou realizado de fazer isso hoje em Fortaleza, ao lado da minha esposa Cássia e do meu filho Lucas, que são os meus melhores troféus. Grandes alunos que saíram do projeto são jogadores profissionais de futsal hoje em dia.

Lições com o coronavírus

Fomos pegos de surpresa. Aqui, o Ceará está muito afetado, mas sei que Pernambuco também está, o que é preocupante. Vejo com tristeza como realmente as coisas estão se desenhando. Países de primeiro mundo sofreram e aqui não seria diferente. Tento sempre buscar informações com ex-companheiros de clubes para saber das cidades deles. Sigo as recomendações dos órgãos de saúde e cada um tem que fazer sua parte. Estamos tendo oportunidade para rever muitas coisas em nossas vidas. Decisões, valores, estamos podendo ficar próximos das nossas famílias, das pessoas que tínhamos uma relação distante. Essa doença está nos mostrando que nós não somos nada. O mundo parou pelo vírus. Espero que a humanidade possa rever seus conceitos, prioridades, porque precisamos uns dos outros.

Fonte: Yuri Teixeira / LNF

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