Éder Popiolski, treinador da equipe de futsal feminino da UnoChapecó/Nilo Tozzo/FMD/Female

Campeã Mundial de futsal feminino. Isto basta para classificar o trabalho da equipe de Chapecó, como do mais alto nível. Dirigir uma equipe feminina traz dificuldades e felicidades que o técnico Éder Popiolski vai nos contar a seguir. Mais uma ótima entrevista que o site www.futsaldeprimeira.com traz para você.
 
Futsaldeprimeira: Muitos técnicos dizem que não seriam capazes de dirigir uma equipe feminina. O que é preciso para se dar bem no futsal feminino?
Éder: Não há uma receita específica para comandar uma equipe feminina ou masculina. Acredito que com trabalho sério se atinge metas e objetivos, independente do gênero. O cargo de treinador exige muito mais que domínio do conteúdo técnico-tático. Por natureza, é um líder e precisará fomentar um bom nível de relações profissionais entre seus colaboradores no sentido de promover um ambiente produtivo de trabalho.

Futsaldeprimeira: Quais as suas experiências no futsal?
Éder: Joguei futsal somente como amador. Ingressei no curso de Educação Física em 2000 e, paralelo, desenvolvi um projeto no futsal feminino, já começando atuar como treinador. Em 2003, tive uma passagem pelo masculino comandando a equipe da categoria sub-20 da AABB/Chapecó. Em 2007 assumi o cargo de supervisor da equipe de futsal masculino adulto de Chapecó. Em nenhum desses momentos abandonei o trabalho com o feminino. Fui convocado para a comissão técnica da seleção catarinense adulta feminina em 2002 e 2004 e da sub-20 feminina em 2007 e, agora, em 2009.

Futsaldeprimeira: Como lidar com as particularidades físicas da mulher no treinamento diário?
Éder: É uma pergunta que parece ser específica, mas é ampla. A primeira percepção que tive lá no início da carreira foi que era preciso produzir uniformes esportivos para elas. Era normal usarem calções e camisetas confeccionados para o homem. Isso não as deixava nada confortáveis.
Na questão da aptidão física é necessário estabelecer parâmetros dentro do gênero. Comparar com resultados de testes físicos dos homens pode ser um grande erro. A dinâmica do jogo feminino produz informações muito mais relevantes para o processo de construção do planejamento da preparação física. Então, nada é mais adequado do que criar critérios de avaliação a partir das exigências requisitadas pelo futsal feminino.
Ainda, fisiologicamente, é preciso entender que o emocional das mulheres é afetado principalmente no período da TPM. De certa forma, quem atua no meio (membros de comissão técnica e atletas), percebe a mudança de comportamento e dá "aquele desconto".

Futsaldeprimeira: O que é mais difícil de trabalhar no futsal feminino em relação ao masculino?
Éder: Existem diferenças em vários aspectos entre o homem e a mulher, mas, entre eles, creio que o emocional seja a grande dificuldade, muito mais pela questão cultural do que a própria genética. O ambiente do jogo de futsal é, muitas vezes, impulsivo e, justamente nesses momentos, que a atleta precisa controlar a emoção para tomar decisões mais acertadas. Desenvolver confiança e autonomia é um desafio importante do processo de treinamento.

Futsaldeprimeira: O que é mais fácil de trabalhar no futsal feminino em relação ao masculino?
Éder: Sem dúvida alguma acredito que a disciplina é um fator que facilita a atuação do treinador. Talvez pelo fato da iniciação ao esporte ocorrer mais tarde, a atleta, geralmente, se dedica muito na aprendizagem. Mas, assim como na questão anterior, creio que a questão cultural influenciou para essa situação, pois até pouco tempo, o futebol é tido como jogo para homem. Agora, sinto que elas querem tirar o atraso e, na minha ótica, isso está acontecendo.
 
Futsaldeprimeira: Por que Chapecó é atualmente a capital brasileira do futsal feminino?
Éder: Acho certo exagero afirmar Chapecó como capital nacional do futsal feminino. Considero que podemos ser uma das referências da modalidade pelo trabalho desenvolvido e os resultados alcançados recentemente. Contudo, é preciso reconhecer e respeitar as contribuições de equipes como Sabesp (São Paulo), Chimarrão (Estância Velha-RS), Kindermann (Caçador), Unopar (Londrina-PR) e Jaguaré (Osasco-SP). O fato de estar, também, nesta lista, nos deixa extremamente felizes, pois conseguimos promover a cidade de Chapecó no cenário nacional do nosso esporte.
 
Futsaldeprimeira: Quem são as principais atletas da equipe de Chapecó?
Éder: Bem, creio que conseguimos desenvolver um diferencial ao longo do tempo que foi promover um equilíbrio técnico no grupo de atletas. Isso foi possível graças ao incremento de investimento dos patrocinadores e, dessa forma, trabalhar com atletas com potencial para ser desenvolvido. Praticamente, todas as atletas jogam todos os jogos, mas não pela simples oportunidade e, sim, pois apresentam condições de manter o jogo em elevado nível. Mas, não vou fugir da pergunta e destaco a fixa Valéria e as alas Vanessa e Jéssika. Também, merecem menção os desempenhos da goleira Giga Paraná e da pivô Cely.
 
Futsaldeprimeira: Como você classificaria o estilo de jogo da sua equipe?
Éder: Tendemos para desenvolver um sistema de jogo de maior complexidade possível, até porque acredito que isso é a maneira de dificultar as ações das equipes adversárias. No plano ofensivo, a definição de jogo livre do Wilton Carlos de Santana* parece que possa ser identificado no nosso modelo. São deslocamentos acíclicos, mas organizados e coordenados. Essas movimentações levam em consideração alguns conceitos produzidos internamente sobre o jogo e, também, o tipo de marcação adversária. Já, o nosso sistema defensivo evoluiu muito nesta temporada e estamos conseguindo variar a sua forma dentro da partida ou, até mesmo, de uma jogada. Preferencialmente, adotamos uma marcação individual pressão na quadra toda e a quadrante dentro da quadra de defesa. Também, temos estratégias para as situações especiais de superioridade e inferioridade numérica. Enfim, a ideia é promover a autonomia nas atletas e aperfeiçoar as respostas em todas as circunstâncias. Não é fácil, mas temos colhido ótimos resultados atuando nessa tendência.
 
Futsaldeprimeira: Quais são os patrocinadores da equipe de Chapecó?
Éder: Temos um time forte fora da quadra e que propicia a execução do projeto. De apoio público temos a Prefeitura de Chapecó, através de convênio, e o Governo de Santa Catarina, por meio do Fundesporte. Da iniciativa privada destacamos os patrocinadores principais: Unochapecó, Nilo Tozzo e Aurora. Nosso projeto também é amparado por contribuições de menor escala, mas que pesam significativamente, pois possibilitam melhores condições de trabalho.
 
Futsaldeprimeira: Chapecó já teve grandes equipes de futsal masculino. O feminino agora é que tem esse posto?
Éder: Pois é! Sem dúvidas, nossa atuação foi estimulada pelas boas equipes de futsal masculino formadas em Chapecó. Contudo, o masculino hoje passa por uma etapa de reestruturação e torço muito para que em breve retorne a figurar entre os melhores de Santa Catarina e, quem sabe, volte a disputar a Liga Nacional. Já, nosso feminino veio crescendo ao longo dos tempos e está num estágio de auge, recebendo carinho, reconhecimento e valorização da comunidade chapecoense. Neste momento somos uma das principais forças do esporte não-profissional de Chapecó e, nossa dedicação é, através da melhoria contínua, em manter-se nesta vanguarda.
 
Futsaldeprimeira: As equipes de futsal feminino são geralmente muito jovens. O que justificaria essa afirmação?
Éder: O movimento do futsal feminino brasileiro é muito recente e, entendo que as primeiras "safras" produzidas pela formação de atletas em escolas de iniciação e formação ao esporte estão acontecendo agora. Por isso, é notável o destaque de atletas entre 18 e 22 anos. Outro fator que contribui para que as atletas fiquem nesta faixa etária está na presença das universidades nos projetos de futsal feminino. Então, durante o processo de graduação, estimuladas pelas bolsas de estudo, as atletas se dedicam ao treinamento e competição como forma de garantir o apoio. Após a formatura acontece uma evasão e talentos do esporte optam por outras carreiras profissionais. Espero que os clubes consigam em breve melhorar as condições e manter as atletas por mais tempo na atividade, pois acredito que isso poderá elevar ainda mais o nível da modalidade.
 
Futsaldeprimeira: Santa Catarina tem 3 entre as 4 melhores equipes do país, mas os campeonatos estaduais tem poucos participantes. Por que?
Éder: Chapecó, Caçador e Criciúma se organizaram e criaram estruturas dignas para desenvolver equipes competitivas e, isso, promoveu certo distanciamento técnico com as demais equipes do estado, desmotivando a participação do certame estadual da Federação. Contudo, a presença de outras e boas equipes nas categorias de base do certame estadual, dá indícios que poderemos, em breve, ter incremento na relação de clubes na principal categoria. Minha sugestão é a criação de uma outra divisão para atender clubes menores. As equipes emergentes deste processo seriam promovidas para a divisão principal, onde penso que a qualificação dos participantes seja mais importante que a quantidade.
 
Futsaldeprimeira: Como está o trabalho de base no futsal feminino catarinense?
Éder: Vejo com ótimas perspectivas. Algumas cidades catarinenses optaram, estrategicamente, em investir nas categorias menores e estão tendo bons resultados. O sistema desportivo de Santa Catarina contribui para esse desenvolvimento, também. As oportunidades oferecidas pelo sistema Fesporte (JESC, OLESC, Joguinhos e JASC) e pela F.C.F.S., que promove competições do feminino em todas as categorias, amplia o leque de possibilidades de participação. Já temos bons treinadores atuando na modalidade e, por tudo isso, vejo um horizonte se ampliando na modalidade.
 
Futsaldeprimeira: Ainda existe preconceito quanto ao futsal feminino?
Éder: O Brasil é um país de vários preconceitos, mas noto que alguns vão diminuindo. No caso de futsal feminino pode até existir algumas opiniões ultrapassadas sobre a participação da mulher no futebol, entretanto, o próprio desenvolvimento da modalidade tem contribuído para que tais manifestações sejam rechaçadas. Não trabalhamos para minimizar ou extirpar de vez o preconceito com o futsal feminino, mas creio que, hoje, em nossa cidade, é muito menor tal incidência. O bom desempenho da equipe e a, conseqüente, maior visibilidade, expôs o trabalho e contribuiu para que o público, em geral, mudasse de atitude.
 
Futsaldeprimeira: Como atrair mais meninas para prática de futsal nas escolas?
Éder: Não é muito difícil. O futebol é paixão nacional deles e delas. Então, é preciso organizar e criar as possibilidades para a participação. Sem dúvida alguma o esporte é um instrumento interessante para ser utilizado como política pública. A maioria dos municípios se utiliza de um belo discurso, mas é preciso qualificar o sistema e isso exige maior dispêndio de atenção e aporte de recursos. Hoje, a participação é maior do que anos atrás e vai aumentar ainda mais nos próximos anos.
 
Futsaldeprimeira: Porque a mídia destaca pouco o futsal feminino?
Éder: Primeiramente, porque a prática é recente e, por isso, a estrutura geral dos clubes ainda não é profissional. Outro fator é a própria mídia, em nível nacional, desconhecer o nível atingido pela modalidade que, com certeza, seria um belo espetáculo para ser apresentado em suas grades de programação. E, por último, a falta de um plano estratégico em conjunto (CBFS, federações e clubes), para promover o futsal feminino e oferecê-lo como produto.
 
Futsaldeprimeira: Quais os próximos desafios da equipe de Chapecó?
Éder: O planejamento desta temporada programou sete campeonatos, sendo quatro já ocorridos: Olimpíada Universitária Catarinense, Campeonato Catarinense, Taça Brasil e Copa das Nações. Felizmente, conquistamos todas, até então. Agora, teremos pela frente a Olimpíada Universitária Brasileira, os Jogos Abertos de Santa Catarina e a Liga Nacional. Sabemos das dificuldades destas competições, mas vamos lutar por mais conquistas.
 
Futsaldeprimeira: Como está o futsal feminino fora do Brasil?
Éder: A Copa das Nações foi a nossa primeira experiência fora do Brasil e de grande valia. Verifica-se que a modalidade é disseminada no mundo todo, porém, ainda, carece de profissionalismo. Assim como no masculino, Brasil e Espanha estão na frente no tocante ao desenvolvimento técnico-tático e, também, ao nível de investimento na modalidade. Em Portugal, a modalidade está organizada e acontecem várias competições nacionais. Sinto a Itália com boas possibilidades de incrementar uma liga profissional em breve. Na América do Sul, mesmo que de forma amadora, as competições em vários países já existem. O Campeonato Sul-americano entre seleções nacionais já ocorreu em 2005, 2007 e, acontecerá, novamente, neste ano. Enfim, penso que, para projetar ainda mais a modalidade no mundo, as autoridades internacionais do futsal precisam efetivar o primeiro Campeonato Mundial. A base para isso já existe!

Futsaldeprimeira: Nos conte como foi a conquista da Copa das Nações?
Éder: Foi uma odisseia ambiciosa. A conquista da Liga Nacional de 2008 nos credenciava a representar o Brasil nesta que é considerada a principal competição interclubes do planeta. Foi a terceira edição da Copa e os comentários das anteriores eram os melhores possíveis. Então, não medimos esforços e montamos um projeto para dar conta dos custos de viagem. A organização da Copa das Nações garantia todas as despesas em solo português e, realmente, eles disponibilizaram uma estrutura que jamais vimos. No âmbito técnico nossa equipe foi muito bem e impôs seu jogo diante das oponentes. O Benfica de Portugal e o Navalcarnero da Espanha eram, também, candidatas ao título, mas naquele momento nossa equipe mostrou superioridade, representada nas vitórias e na conquista da Copa das Nações. Foi uma oportunidade que soubemos aproveitar e, graças a isso, o mundo do futsal feminino passou a nos conhecer.

Futsaldeprimeira: Obrigado pela gentileza. Parabéns pelo trabalho e ótimos resultados da equipe de Chapecó.
Éder: Obrigado! Em nome da nossa equipe, agradeço a oportunidade de divulgar o trabalho que realizamos. O futsaldeprimeira tem se caracterizado como um espaço interessantíssimo de divulgação do futsal, especialmente, o do nosso estado. Foi um prazer responder a entrevista que, diga-se de passagem, muito bem formulada. Quando é feito por profissionais, a qualidade é garantida. Desejo aos mentores, professores Egidio e Valmir, muito sucesso! E, também, me coloco a disposição sempre que necessitarem. Um abraço.
 

 

 











 
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