O entrevistado desta vez é o catarinense e atual treinador da Seleção Brasileira de futsal, Marcos Sorato (39 anos), o Pipoca. Natural de Criciúma, ele nos fala um pouco da sua trajetória dentro do futsal, dos 13 anos que jogou fora do Brasil, da sua mudança para jogar na Espanha, das suas referências como treinador e muito mais. Sem dúvida é mais uma grande entrevista que o futsaldeprimeira.com traz para você.
Futsaldeprimeira: Você jogou pouco tempo no Brasil. Como era seu futsal nesta época?
Marcos Sorato: Joguei na Tigre de Joinville, levado pelo Ferretti, e Votorantin, de Recife, no final da década de 90. Nessa época o futsal era pouco dinâmico, pelas regras, mas de uma técnica muito refinada pela qualidade dos jogadores. Eram verdadeiros salonistas. Logo em 1998, por nunca ter jogado a Liga Futsal no Brasil, vim jogar na Ulbra com o PC de treinador, onde ganhamos a Liga, mas acabando o ano, voltei a Espanha. Esse ano, foi de grande aprendizado.
Futsaldeprimeira: Como a Espanha surgiu na sua vida?
Marcos Sorato: Em 1990, eu com 19 anos, fui convidado pelo Chico Lins para ir jogar na Espanha. Fui para conhecer, e acabei ficando 15 temporadas. Nós como dupla de estrangeiros ficamos reconhecidos pela nossa profissionalidade e por tentar jogar um futsal total, ou seja, fazer um jogo dinâmico.
Futsaldeprimeira: A sua ida para Espanha modificou o seu jeito de jogar e ver o futsal?
Marcos Sorato: Com certeza, em todo lugar se aprende e na Espanha não foi diferente. Mais que pela Espanha em si, pois naquela época eles aprendiam mais dos brasileiros que ao contrário. Quem me marcou foi um treinador brasileiro, Zego, que já trabalhou em 25 países e foi o criador do sistema 4 x 0. O futsal espanhol, deve muito a ele e vários treinadores, inclusive Lozano (bi campeão mundial), que jogamos juntos , reconhece isso publicamente. Naquela época, eu jogava de ala, fui pra lá jogar de pivô, mas tínhamos que fazer de tudo um pouco, pois as equipes se baseavam nas duplas de estrangeiros, isso até aparecer a geração bi campeã do mundo.
Futsaldeprimeira: Quais foram as suas referências do futsal brasileiro e espanhol?
Marcos Sorato: Brasileiro quanto a treinadores: PC, Ferretti, Marcão, Zego, Ney Perera. Jogadores foram muitos: Mauro Brasília, Vander Iacovino, Chico Lins, Jorginho, Fabinho, Jackson, enfim, acabamos esquecendo nomes com certeza. Espanhol não tive um referente, mas sim a filosofia coletiva que sempre tive a sorte de ter nos clubes que joguei.
Futsaldeprimeira: Qual a contribuição dos brasileiros para a evolução do futsal espanhol?
Marcos Sorato: Talvez não reconheçam publicamente hoje pela rivalidade, mas foi total. Na nossa chegada, encontramos um campeonato super organizado, com calendário, etc. Mas não eram profissionais, e nós aqui no Brasil, final da década de 80, muitos clubes já trabalhavam profissionalmente. Nós mostramos esse lado de estrutura profissional, e para mim, o mais importante, mostramos o lado competitivo, não só nos jogos, como também nos treinos.
Futsaldeprimeira: Como foi sua trajetória no futsal espanhol?
Marcos Sorato: Ganhei três ligas nacionais, duas copas da Espanha, fui artilheiro em duas ocasiões e joguei mais cinco finais de Liga. Ganhei também uma Copa da Europa de Clubes e duas vezes melhor pivô do campeonato.
Futsaldeprimeira: Muitos não conheciam o Marcos Sorato como técnico. Como foi sua formação de técnico?
Marcos Sorato: Na Espanha, para ser treinador, tem que ter um curso de três anos de formação e eu fiz dois, pois no terceiro ano voltei ao Brasil para ser auxiliar na seleção. Mas lá trabalhei um ano como auxiliar do PC num clube espanhol e logo fiquei uma temporada de treinador. Logo, estou há 4 anos na CBFS, antes como auxiliar do PC e agora como treinador da seleção brasileira e auxiliar do Vander Iacovino na seleção brasileira feminina e sub-20.
Futsaldeprimeira: Como joga o time ideal do técnico Marcos Sorato?
Marcos Sorato: Hoje não tem espaço para não jogar um futsal total. Defender e atacar todos. Em defesa, o Brasil cresceu muito desde a chegada do PC e a idéia é dar continuidade. Em ataque acredito na ‘’anarquia organizada’’, onde podemos dar uma organização no início dos movimentos, mas não fazer com que os jogadores sejam robôs, ao contrário, temos que fazê-los pensar. Logo, temos que ter todos critérios táticos definidos, goleiro linha, o jogo de transição, contra ataque e a bola parada, que valorizo muito.
Futsaldeprimeira: E como você definiria um jogador ideal?
Marcos Sorato: Hoje para mim o mais perto do ideal é o Vinicius, capitão da seleção brasileira. Ataca, defende, organiza, é líder, enfim, muito completo, é o jogador que todo treinador gostaria de ter, ainda que algumas vezes não aparece muito para a torcida.
Futsaldeprimeira: Você citaria algum jogo ou jogos inesquecíveis que você tenha participado ou assistido?
Marcos Sorato: Acho que todas finais de mundial são inesquecíveis. Participei da última como auxiliar. Como jogador as finais de liga sempre ficam marcadas. Mas para nós, o jogo mais importante sempre será o próximo.
Futsaldeprimeira: Você esteve a frente do projeto do futsal feminino, como foi esta experiência?
Marcos Sorato: De um enorme aprendizado. Trabalhar com o feminino é muito gratificante, pois as atletas são disciplinadas, dedicadas, tem fome de aprender. Hoje sigo de auxiliar do Vander e isso me satisfaz muito, pois sempre aprendemos algo novo com elas.
Futsaldeprimeira: Porque o futsal feminino ainda não atingiu o nível de aceitação pela mídia e investidores?
Marcos Sorato: Por falta de conhecimento, pois quem vê um jogo do feminino de alto nível não espera tanta qualidade como existe. Mas como no futebol ainda somos machistas nesse sentido, porém tem jogos no feminino que são muito melhores que alguns masculinos.
Futsaldeprimeira: Para o técnico quais as vantagens e desvantagens em trabalhar com o feminino?
Marcos Sorato: Não vi nenhuma desvantagem. Também é verdade que seleção brasileira, tudo é mais fácil, pois todas querem estar. Vantagens são muitas, porque você nota que elas ficam agradecidas por um mínino de informação que transmites. São mais disciplinadas e sacrificadas.
Futsaldeprimeira: O Brasil perdeu dois mundiais para Espanha com uma geração extremamente técnica e com jogadores de muita habilidade. Como explicaria essa derrota se éramos superiores nesses aspectos?
Marcos Sorato: Sem dúvidas que éramos superiores. Na primeira derrota, em 2000, a CBFS então, não convocava brasileiros que atuavam fora do Brasil e foi um erro, pois esses atletas que estavam lá poderiam passar mais informações. Em 2004, já encontramos uma Espanha, não tão boa quanto a de 2000, mas confiando em suas possibilidades. Logo foram jogos decididos em detalhes, como serão todos os jogos entre Brasil e Espanha.
Futsaldeprimeira: E depois recuperamos com jogadores que estavam na Europa e com concepções do futsal europeu, como muita marcação e posse de bola. Jogamos um mundial à moda européia?
Marcos Sorato: Primeiro a passagem do PC na liga espanhola fez com que ele conhecesse um outro lado do futsal e aí ele teve a capacidade de juntar as ‘’duas escolas’’. Unido a isso, os atletas que lá atuam também têm essa característica. Mas não deixamos de ser ‘’brasileiros’’, com técnica, competitivos, só que acrescidos de algumas situações táticas, principalmente em defesa, que nos fizeram mais sólidos.
Futsaldeprimeira: A Liga Futsal é a nossa grande competição, mas ainda está longe do ideal. Você aceita essa afirmação?
Marcos Sorato: Ela caminha para o ideal. Ela evolui a cada ano, mas ainda falta melhorar o calendário, que são os clubes que aprovam. A CBFS cada vez mais, injeta e busca recursos para a melhora da Liga, agora cabe aos clubes, que são quem aprovam o calendário, buscar melhorar nesse sentido, pois as vezes por economia, preferem jogar dois jogos seguidos num estado.
Futsaldeprimeira: Muitos jogadores novos aparecem rápido e logo são lançados na seleção para jogos contra adversários de origem e qualidade duvidosa. Isso não banaliza a importância de vestir a camisa da seleção?
Marcos Sorato: Primeiro quanto a questão de adversários de origem duvidosa: esse ano, jogamos contra Irã, Portugal e Rússia, que junto a Espanha e Itália, são as 5 melhores do mundo. Espanha, de 2005 a 2008, ficamos tentando jogar amistosos, mas eles não quiseram. Mas vamos seguir tentando. Quanto a banalizar a camisa da seleção: qualquer lista é baseada em rendimento, compensação da equipe e observação de novos atletas. Porém, nossas listas muitas vezes ficam limitadas, poucas vezes temos condições de juntar a seleção absoluta. Ora podemos ter só os que atuam na Europa, ora só os que atuam no Brasil, ora os clubes tem compromissos, lesões, etc. Sorte nossa, que nosso leque de opções é amplo e não banalizam, porque todos que estiveram conosco nas últimas convocações, honraram a camisa e mostraram valor para estar na seleção. Mas é lógico, que se pudéssemos ter sempre a lista absoluta, as vezes não precipitaríamos alguns jovens na seleção, ainda que como citei, responderam perfeitamente, e o processo de transição, exige essa mescla, jovens e experientes.
Futsaldeprimeira: Como estudioso do futsal, você deve ter ouvido de jogadores como Douglas por exemplo que sonhavam em jogar uma Olimpíada. Passou a Geração Douglas e Jackson, a Geração Vander e Manoel Tobias e provavelmente a geração Falcão não irá à Olimpíada. O que fazer para termos força política e chegarmos ao Olimpo?
Marcos Sorato: É uma questão meramente política. Pois nós como esporte, modalidade, reunimos todos requisitos, que foram colocados em xeque para não ser olímpico e hoje não tem fundamento. Por exemplo: paises praticantes, hoje são mais de 170, regras unificadas (ainda que isso é desculpa, pois no basquete tem as regras NBA e FIBA), e assim por diante. Tudo isso virou desculpa e se mostra que existe algo político que não sabemos e se a FIFA quiser realmente consegue inserir o futsal na Olimpíada. Mas se isso não acontecer, temos que pedir a FIFA, que siga o modelo do Brasil, e aplique e incentive competições de base nos países que tem futsal, porque esse é o grande problema do nosso esporte. Porém estão fazendo ao contrário, já que a UEFA, acabou de extinguir o campeonato europeu sub-21, isso sim é o grande problema.
Futsaldeprimeira: Fazendo um exercício de futorologia, como será o futsal nos próximos anos dentro e fora das quadras?
Marcos Sorato: Sempre temos esperança de que melhor. E uma coisa, leva a outra, quanto mais estrutura fora, melhor ele será dentro. O Javier Lozano, técnico espanhol, que hoje é presidente da Liga Nacional da Espanha, até ano passado, era coordenador das equipes de base do Real Madrid. Ele me comentou que estamos bem próximos do futebol, e algumas coisas na frente, e estamos falando de um Real Madrid, então, se tivermos estrutura, os profissionais do nosso esporte, que são ótimos,ficarão ainda melhores. Quanto a seleções, cada vez mais igualdade, pela globalização, e porque cada vez há mais brasileiros em todos os países ensinando, e quando, não, jogando pelas seleções.
Futsaldeprimeira: A CBFS construiu um belo centro de treinamentos em Fortaleza, mas as grandes equipes estão principalmente no sul e sudeste. Voleibol e futebol, por exemplo tem suas bases no sul e sudeste até por questão de mídia e logística. Porque o futsal foge desta tendência?
Marcos Sorato: A sede da CBFS há muitos anos é em Fortaleza, não teria sentido que o CT fosse distante de lá.
Futsaldeprimeira: Você e o Vander, como técnicos da Seleção, deram uma motivação aos jovens treinadores que se lançam no futsal. Você tem sentido esse efeito nas competções nacionais e nas suas andanças pelo Brasil?
Marcos Sorato: Sim, não podemos esquecer dos nossos cones como treinadores: PC, Ferretti, Marcão, Paulo Mussalen e Ney Pereira, que estão e ainda estarão por muito tempo atuando, porém, tudo se renova e tem uma ótima geração aparecendo.
Futsaldeprimeira: Quem você citaria nessa nova geração de treinadores?
Marcos Sorato: O Perdigão do V&M Minas e o Marquinhos Xavier do Copagril de Marechal Cândido Rondon, são ótimos treinadores, mas com certeza tem muitos excelentes profissionais aparecendo, inclusive no feminino.
Futsaldeprimeira: O Brasil campeão de 2008, tinha jogadores experientes e que provavelmente não jogarão o próximo mundial. Como está a renovação do futsal jogado no Brasil?
Marcos Sorato: Tem uma geração super talentosa, que não sabemos se estarão, mas até lá, enquanto estiverem rendendo e fisicamente bem nos ajudarão nesse processo. Basta ver os artilheiros da Liga, Falcão e Lenisio, eles estando fisicamente bem, os necessitamos, porém, tem gente jovem e muito boa aparecendo.
Futsaldeprimeira: O basquete brasileiro passou muitos anos sem investimento depois da aposentaria de Oscar Schmitt. Você acredita que esse fenômeno pode acontecer sem Falcão com toda sua magia e espetáculo?
Marcos Sorato: O futsal brasileiro deve muito ao Falcão. Mas precisamos trabalhar para que o esporte seja o espetáculo, logicamente, que é feito por jogadores como Falcão, que tem uma habilidade ímpar e soube juntar esse talento a ser competitivo, pois se fosse só habilidade não seria o Falcão. Não podemos querer ficar buscando um novo Falcão, isso é difícil demais, mas temos que potencializar o jogo, dinâmico, vibrante, como foi a última final de Liga, que foi um grande espetáculo.
Futsaldeprimeira: Nós do futsaldeprimeira.com agradecemos muito a sua atenção, disponibilidade de nos atender, mesmo com muitos amistosos pela Seleção Brasileira. Aproveitando também para lhe parabenizar pelo ótimo trabalho que você tem feito na melhor seleção do planeta ao lado do competente Vander Iacovino. Muito obrigado.
Marcos Sorato: Nosso esporte, que é dinâmico e atrativo, merece ser olhado com mais carinho pelos políticos e empresários. É um esporte brasileiro, praticado por mais de 12 milhões de pessoas e precisa ser valorizado.
Parabéns a todos profissionais do futsal, dirigentes, treinadores, atletas, imprensa, todos juntos poderemos fazer nosso esporte maior ainda. E parabéns pelo site, muito bom e bem informado.